Nacional regressa aos Açores para explorar o segredo de Santa Catarina

A onda de Santa Catarina, na ilha Terceira, é o palco de luxo, dia 2 e 3 de Outubro, para a terceira etapa do Circuito Nacional Crédito Agrícola 2021 que chega da Figueira da Foz com muitas surpresas no “ranking”, nomeadamente, os sétimos lugares dos campeões nacionais Daniel Fonseca e Joana Schenker, e a liderança de Miguel Ferreira e Filipa Broeiro nas contas dos títulos nacionais (Pierre Louis Costes que lidera o “ranking” é francês e não pode sagrar-se campeão nacional).

Mas tanto ou ainda mais que a corrida à lycra verde do Crédito Agrícola, que distingue os campeões nacionais, o grande motivo de interesse é a própria onda de Santa Catarina. Localizada numa pequena baía no concelho da Praia da Vitória, a “Santa” é uma laje de pedra vulcânica que produz uma onda super pesada e tubular que tem tanto de espetacular como de perigoso. Uma onda de classe mundial relativamente pouco explorada mas que tem um lugar especial entre um nicho de bodyboarders locais e alguma da elite nacional que regularmente ali se desloca quase em segredo.

Miguel Ferreira, 21 anos, líder das contas no que diz respeito ao título nacional, segundo classificado na Figueira da Foz, derrotado apenas por uma exibição eletrizante do francês Pierre Louis Costes, nunca esteve em Santa Catarina mas diz-se “preparado para tudo”:

“Honestamente, não foi uma surpresa chegar à final na Figueira. Vinha de um bom momento do Sintra Portugal Pro e tive até de me acalmar para não ser traído pelo excesso de confiança. Para a Terceira, as expectativas são as mesmas da etapa anterior: chegar à final. Quanto à onda, estou preparado para tudo. Toda a gente quer que esteja clássico e perfeito, mas enquanto atleta, repito, estou preparado para tudo.”

E o título nacional? É uma ambição para Miguel Ferreira? 

“Claro que sim, ambiciono o título. Há algum tempo que me sinto tecnicamente capaz de o conquistar mas demorei um pouco a habituar-me a surfar no open com malta mais velha, atletas que cresci a ver surfar e que demorei a ver como iguais. Mas agora são mais três licras coloridas dentro de água.”

E por falar em “licras coloridas”, Daniel Fonseca, o homem da licra verde, símbolo que distingue o campeão nacional, apesar de estar em sétimo lugar com mais apenas mais duas etapas para disputar, assegura que ainda não está pronto para se render:

“O circuito não correu da forma como esperava, mas está super competitivo e a verdade é que nem sempre a sorte cai para o nosso lado. Na, Figueira, na bateria das meias-finais em que fui eliminado, andei 20 minutos atrás do prejuízo e não encontrei a onda que precisava. Fiquei chateado mas acredito no meu potencial e acredito em fazer bons resultados. E correr atrás dos resultados às vezes é bom.”

Daniel, bicampeão nacional em título, também nunca esteve na Terceira e está entusiasmado com a estreia: 

“Já comecei a ver as previsões. Estou com vontade, vou dois dias mais cedo e fico lá mais três dias depois do campeonato para umas mini-férias. Essencialmente, vou para surfar as condições que se apresentarem e mostrar bom surf. O resto, a acontecer, virá por arrasto.”

Na competição feminina, o estado da nação espelha o que aconteceu no open, com a heptacampeã nacional Joana Schenker a ser eliminada nas meias-finais, algo que aconteceu apenas duas vezes nos últimos sete anos.  

“Competi condicionada fisicamente com uma lesão nos lombres e medicada com analgésicos. Não é desculpa porque se não ajudou, o problema nem foi esse. Apenas escolhi mal o sítio para surfar e não consegui compensar por estar sem a remada normal”, explicou Joana Schenker, sublinhando que “a lesão não justifica os meus erros.”

A campeã nacional está consciente que o sétimo lugar na Figueira coloca em risco a revalidação do título mas diz que não vai “baixar os braços”:

“Como tenho sétimo lugar, situação em que nunca me encontrei e sem resultados para substituir, tentar vencer etapas sem fazer contas. Já não depende só de mim, o que me deixa um bocado frustrada, mas não vou baixar os braços.”

Na outra ponta do espetro competitivo está Filipa Broeiro. A jovem de 20 anos, antiga campeã europeia de juniores e agora líder do “ranking” nacional, já só pensa na estreia nos Açores: 

“Estou tranquila, tento não pensar muito no título. Só estou ansiosa porque nunca andei de avião [risos] e espero apenas surfar bem e divertir-me. Tenho treinado muito em fundo de pedra e tenho recolhido informações sobre a onda de Santa Catarina. Dizem -me que é uma onda potente e rápida, para tubo e manobra no fim. Estou curiosa.”

André Avelar, presidente da Associação de Surf da Ilha Terceira explica a motivação em ter o Nacional de volta à ilha 10 anos depois da última passagem por Santa Catarina:

“É um orgulho ter aqui o Circuito Nacional Crédito Agrícola 10 anos depois. Queremos que esta prova aproveite todo o potencial da onda de Santa Catarina e levante um pouco o véu do que temos para oferecer aqui nos Açores. A ideia é começar a vender outras vertentes do turismo açoriano numa altura em que estamos a recuperar da crise provocada pela pandemia.”

E a ajudar neste propósito, os atletas açorianos vão participar em força com os terceirenses Tiago Navega e João Ferreira, mais os micaelenses Rodrigo Rijo, Pedro Correia e Miguel Reis.

Também para a Câmara Municipal da Praia da Vitória, a passagem do CNBBCA 2021 se reveste de grande importância, conforme explica o seu presidente, Tibério Dinis: 

“Para a praia da Vitória, este evento é importantíssimo para a promoção do Turismo no concelho. Vem dar a conhecer a Praia da Vitória e as condições excelentes que possui para a prática do bodyboard e outros desportos náuticos, mas também tem um segundo vetor: a presença desse circuito permite a vinda de bodyboarders nacionais do mais alto nível e que permite aos jovens que estão a praticar que se entusiasmem, vejam outras técnicas e ganhem gosto pela prática.”

E é precisamente no vetor desportivo que se concentra Luís Couto, Diretor Regional do Desporto:

“Qualquer tipo de evento que chegue até nós integrado em competições nacionais e que traga atletas do mais elevado nível, aportam desenvolvimento desportivo. Devido à nossa natureza insular, estamos um pouco mais fechados para desenvolver iniciativas desportivas, o que limita o desenvolvimento. E a competição é a levedura do processo desportivo. É com enorme agrado que vemos a introdução dos Açores no circuito porque traz consigo todos esses benefícios.”

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